Reconstruindo cacos de vida
- Psic-Rosemary Gomes

- 9 de mai.
- 3 min de leitura

É possível ter vida, desejo e reconstrução subjetiva mesmo sendo Borderline.
Eu sou psicanalista e neuro psicanalista, Rosemary Gomes, e escrevo não apenas a partir do estudo, mas também da travessia. Sou testemunho de que uma pessoa com Transtorno de Personalidade Borderline pode ressignificar sua própria história. Essa transformação, porém, não acontece por milagre nem por atalhos: ela exige trabalho psíquico, sustentação no tratamento e, sobretudo, um desejo decidido de mudança. Exige também tempo para que novas inscrições subjetivas se constituam e para que a própria vida, antes marcada pela repetição do sofrimento, possa encontrar outros destinos.

Na experiência borderline, muitas vezes o sujeito vive como se estivesse em pedaços. Há uma sensação de descontinuidade interna, como se faltasse um contorno suficientemente estável para sustentar a própria existência. Em linguagem psicanalítica, poderíamos dizer que o eu se vê frequentemente ameaçado por vivências de desamparo, excesso e ruptura. O mundo deixa de ser um lugar habitável e passa a ser vivido, não raramente, como cenário de abandono, invasão ou estranhamento. Por isso, ressignificar essa condição não é um simples exercício de pensamento positivo; trata-se de uma reconstrução profunda do modo como o sujeito se relaciona consigo, com o outro e com o desejo.
Tudo afeta intensamente. E, às vezes, quando aparentemente nada afeta, o sujeito busca fora uma cena que encene por dentro o que ainda não conseguiu simbolizar. Freud já nos ensinava que aquilo que não é elaborado tende a retornar, insistindo sob a forma de repetição. Em muitos momentos, instala-se uma vivência persecutória: a impressão de que o mundo conspira, julga, abandona ou ameaça. Em outros, surge o movimento contrário, uma espécie de engrandecimento narcísico, como se fosse preciso restaurar, por meio de uma imagem grandiosa de si, aquilo que internamente se sente humilhado, ferido ou estilhaçado. Lacan nos ajuda a compreender esse ponto ao mostrar o quanto o sujeito depende do olhar do outro para se reconhecer. Quando esse reconhecimento falha ou vacila, a oscilação entre idealização e queda pode se tornar devastadora.
O processo de reconstrução de uma pessoa com TPB requer, ao seu redor, vínculos capazes de oferecer algum grau de estabilidade, continência e consistência. Não se trata de rotular o sujeito como uma ameaça, mas de reconhecer que seu sofrimento transborda e, muitas vezes, convoca intensamente aqueles que estão próximos. Em termos clínicos, estamos diante de alguém que vive com extrema sensibilidade ao abandono, à rejeição e à perda, reagindo com intensidade a movimentos que, para outros, poderiam parecer suportáveis. Por isso, o cuidado exige presença, escuta e firmeza, sem moralismo e sem abandono. O tratamento precisa funcionar como espaço em que aquilo que antes explodia possa, pouco a pouco, ganhar palavra.

E, quando escrevo isso, falo também de mim. Falo de quem fui, dos excessos que me atravessavam, das dores que eu não sabia nomear e das rupturas que me constituíam. Hoje, sou profundamente diferente. Não porque tenha apagado minha história, mas porque pude relê-la. Se antes eu vivia capturada por repetições e impasses, hoje posso me reconhecer de outro modo. Houve, em mim, uma verdadeira torção subjetiva: aquilo que parecia apenas sofrimento tornou-se também possibilidade de elaboração. Fui, por assim dizer, virada do avesso — e descobri que o avesso continha partes de mim que ainda não tinham encontrado lugar de fala.
Se você deseja acompanhar essa travessia, convido você a seguir este blog. Aqui, pretendo compartilhar não apenas a minha história, mas reflexões sobre sofrimento psíquico, reconstrução, desejo, laço, tratamento e esperança. Quero mostrar, com honestidade e sem romantização, que é possível viver com mais estabilidade e mais equilíbrio, mesmo quando a estrutura psíquica foi marcada por intensos desencontros. A mudança existe, mas ela pede escuta, trabalho e coragem. E, acima de tudo, pede que o sujeito deixe de se definir apenas pela dor para começar, pouco a pouco, a se autorizar a existir para além dela.
Até a próxima leitura.
Rosemary Gomes



Que sua história possa inspirar outras a ressignificarem suas vidas!